Resumo
Metodologia combina modelos BIM, inteligência artificial e planejamento inteligente para reduzir o impacto ambiental da construção civil.
Uma das apresentações mais aguardadas do 8º Congresso Internacional A ERA BIM — dedicado ao tema “BIM e as mudanças climáticas: prevenção, gestão e resiliência” — foi conduzida pelo pesquisador português Manuel Parente. PhD em Engenharia Civil e Sistemas de Informação e atualmente pesquisador do ISISE – Institute for Sustainability and Innovation in Structural Engineering, Parente apresentou uma metodologia inovadora que busca reduzir o impacto ambiental da demolição de edifícios, cujos resíduos, por não possuírem valor comercial, acabam majoritariamente destinados a aterros sanitários.
“O RecycleBIM tem como objetivo desenvolver metodologias e estratégias para tratar dados voltados à circularidade dos materiais, tornando os fluxos de trabalho de demolição mais sustentáveis”, explica Parente. “Isso interessa a uma ampla gama de stakeholders: empresas de demolição, gestoras de resíduos, recicladoras, projetistas, empreiteiras e gestores de ativos, entre outros.”
Para responder a esse desafio, Parente detalhou que o RecycleBIM se estrutura em três pilares principais. O primeiro é a vistoria e o mapeamento do edifício. O processo combina inspeção presencial com nuvens de pontos capturadas por laser scanners, permitindo construir um modelo BIM da edificação. “Não é um modelo que precise de todos os detalhes, pois o edifício será demolido. O objetivo é calcular a quantidade e o tipo de materiais gerados na demolição”, destaca.

O segundo pilar é o planejamento da demolição a partir do modelo BIM. Informações como custo, tempo e impacto ambiental são processadas por ferramentas de inteligência artificial, que definem a ordem das equipes e das etapas de desmontagem. “Numa fase inicial, podemos retirar elementos que podem ser vendidos inteiros — portas, janelas, luminárias. Mas o sistema também precisa compreender que, se a intenção é separar materiais e isso exige intervenção humana, um pilar não pode ser removido antes de uma viga ou laje, sob risco de acidentes. Preparamos o sistema para executar esses raciocínios automaticamente e planejar a melhor estratégia com base nos critérios de cada empresa”, explica o pesquisador.
O terceiro pilar envolve a disponibilização automatizada das informações geradas pelo modelo BIM em um marketplace. Dados sobre volume e quantidade de materiais, além de informações da própria demolição, são carregados automaticamente na plataforma, onde podem ser submetidos à compra imediata ou a lances, em dinâmica semelhante a um leilão. “É possível vender tanto elementos inteiros, como janelas ou luminárias, quanto materiais construtivos, como aço ou vidro. Isso depende do interesse do mercado, da disponibilidade dos materiais ao longo da demolição e do impacto ambiental, uma vez que reutilizar é, em geral, mais sustentável do que reciclar”, observa.
Parente destaca que esses três pilares formam um ciclo interdependente, pois informações sobre quantidade, disponibilidade e demanda precisam estar atualizadas e integradas entre todas as etapas e sistemas. Ele reforça que o objetivo do projeto, cujo conhecimento está disponível integralmente, de forma gratuita e on-line, é apoiar empresas em sua tomada de decisão.
“Tempo, custo, impacto ambiental e demanda de mercado são fatores envolvidos na escolha das estratégias de demolição. Nosso propósito é indicar às empresas as soluções mais adequadas do ponto de vista ambiental. Não tomamos decisões por elas, mas fornecemos suporte para que possam fazê-lo da melhor forma”, conclui.