Resumo

Projetos ferroviários, rodoviários e marítimos e estudos geotécnicos têm contado com o BIM para promover assertividade, colaboração e eficiência em cenários amplos e complexos

Imagine uma única edificação. Provavelmente, é de senso comum que o processo de projeção e construção deste ativo seja complexo, considerando a integração das disciplinas envolvidas, a colaboração entre diferentes stakeholders, a assertividade na orçamentação e na definição de prazos, entre outros desafios. Então, o que dizer da gestão de rodovias com milhares de quilômetros, da construção de linhas de metrô que atenderão milhões de pessoas ao longo dos anos ou da projeção e instalação de travessias marítimas que contam com segmentos totalmente submersos?

 

Nesses casos, fica ainda mais evidente que, quando falamos em BIM, não estamos considerando apenas uma evolução na forma de fazer projetos, mas de uma metodologia essencial para garantir coesão e integração entre as diferentes partes envolvidas, possibilitando uma diversidade de escolhas não só na forma de desenvolver projetos, mas de executar obras e de pensar na perenidade do ambiente construído para além da entrega, adentrando a operação e manutenção das grandes estruturas ao longo do tempo.

 

Durante a 8ª edição do Congresso Internacional A ERA BIM, representantes de grandes operadoras ferroviárias, órgãos reguladores rodoviários, empresas de engenharia consultiva, indústria mineral e especialistas internacionais reforçaram o papel do BIM como elemento estruturante para produtividade, qualidade, rastreabilidade e tomada de decisão em projetos, obras e operações complexas. Confira:

 

BIM nos trilhos

O painel, que contou com a mediação de Giovani Costa, da Geribello Engenharia, e a participação de Cibele Alves, da CPTM, e Paulo Renato Vieira Andrade, da MRS Logística, discutiu o papel do BIM na infraestrutura ferroviária, enfatizando o impacto na operação, manutenção e na gestão de ativos de alta complexidade.

 

Costa abriu o painel destacando o retorno do protagonismo do setor ferroviário no Brasil e o volume bilionário de investimentos previstos para os próximos 15 anos, convidando os participantes a explicarem como o BIM tem feito diferença nesse cenário, especialmente para qualificar a operação dos ativos.

 

Alves apresentou a jornada da CPTM rumo à maturidade BIM, dos primeiros workshops em 2012 até a chegada dos gêmeos digitais, e destacou o FerroBIM, programa que marca uma virada estratégica da empresa. Nos pŕoximos anos, a CPTM deve estar voltada à padronização, consolidação de um CDE robusto, atualização tecnológica e engajamento das equipes. “Estávamos muito profundos no 3D, mas no 4D e 5D, não, e sentimos a necessidade de rever processos e avaliar melhorias. Nosso compromisso é que, até 2027, 100% dos novos empreendimentos sejam gerenciados em BIM”, destacou.

 

Vieira concentrou-se no papel do BIM para o que ele chamou de “Better Information Management”, ressaltando o  valor da informação para tomada de decisão. Ele destacou o desafio de gerir mais de 20 mil ativos, 200 projetos simultâneos, milhares de revisões e usuários em um CDE que centraliza todo o fluxo, o que não seria possível sem a evolução do BIM e da transformação digital no setor da construção. “O modelo da MRS está baseado na integração de três frentes: o BIM, o GIS [Geographic Information System, ou Sistema de Informações Geográficas] e o EWP [Engineering Work Package (Pacote de Trabalho de Engenharia. No futuro, queremos integrar malha digital, nuvem de pontos e SAP para consolidar gestão de custos e ativos, preparando o caminho para gêmeos digitais que apoiarão a operação e manutenção dos ativos”.

 

BIM em rodovias

O painel reuniu Douglas Brito (ANTT), Anderson Ferreira (DNIT) e Santi Ferri (ARTESP), com mediação de Guilherme Borges (Autodesk), para discutir o papel do BIM na modernização da infraestrutura rodoviária, convergindo em benefícios de operação e manutenção das vias como auditorias digitais e mais precisas, automação de verificações e tomada de decisão orientada por dados georreferenciados. Borges contextualizou o desafio brasileiro de administrar uma das maiores malhas rodoviárias do mundo, que atravessa diversos biomas e condições climáticas.

 

Brito descreveu a evolução do BIM nas concessões rodoviárias federais, explicando que a ANTT incorporou diretrizes alinhadas à Estratégia BIM BR e, a partir de 2021, todas as novas concessões passaram a exigir planos de desenvolvimento BIM (PDBIM). Em 2023, a agência recebeu os primeiros PDBIMs estruturados pelas concessionárias, e agora avança no estabelecimento de diretrizes de uso do BIM voltados à fiscalização, segurança viária, sustentabilidade e resiliência para as concessionárias. “Para os próximos anos, devemos ver maior aplicação do BIM com auditorias tecnológicas e automação de verificações no setor, gerando ganhos significativos na operação e manutenção”, pontuou.

 

Ferreira, por sua vez, explicou que o DNIT iniciou a adoção do BIM com foco em projetos, especialmente obras de arte especiais, e que os diferentes níveis internos de maturidade tecnológica exigiram capacitação e modernização de infraestrutura. Ele acredita que os maiores ganhos do uso do BIM virão na fiscalização de obras e na gestão de ativos, especialmente em conjunto com o GIS. “Tudo está evoluindo muito rápido, com possibilidade de uso de câmeras 360°, compatibilização com GIS e mecanismos que reduzem deslocamentos e ampliam a confiabilidade da informação recebida das obras”.

 

Já Ferri apresentou o modelo de implantação do BIM nas concessões paulistas – a ARTESP exige desde 2019 que concessionárias adotem BIM e desenvolvam gêmeos digitais completos da malha viária nos primeiros anos do contrato, o que agilizou o avanço da tecnologia nas rodovias do estado. “Agora, estamos trabalhando na padronização dos modelos recebidos, desenvolvendo normas de nomenclatura de elementos verticais e horizontais e estruturando processos para extração automatizada de geometria. Nos próximos anos, vejo um avanço da fiscalização sistematizada, com uso de drones e agentes IA, permitindo dar retorno mais ágil aos tomadores de decisão e melhorando os serviços prestados aos usuários”, ponderou.

 

BIM em projetos geotécnicos

Conduzido por Alana Stamford, da TPF Engenharia, o painel contou com apresentações de especialistas da Vale — Francisco Santos Júnior e Silvio Ferreira — e da TPF Engenharia — Thiago Melo e Matheus Lima, que explicaram como a combinação inovadora de BIM com Advanced Work Packaging (AWP, uma metodologia mais comum na indústria) tem se mostrado decisiva para otimizar a organização, planejamento e qualidade das obras conduzidas em conjunto pelas instituições.

 

Francisco Santos e Silvio Ferreira colocaram luz sobre a cadeia operacional da Vale — mineração, beneficiamento, transporte e exportação — e como o AWP tem permitido organizar atividades de engenharia, suprimentos e construção em um fluxo contínuo. No escopo dos projetos geotécnicos, segundo eles, a Vale desenvolveu diretrizes para iniciar o AWP ainda nas fases conceitual e básica, antecipando interferências e facilitando quantificação por áreas de construção. O método aproximou equipes operacionais, reduziu retrabalhos e fortaleceu a colaboração.

 

Já Thiago Melo e Matheus Lima enfatizaram como o AWP ajudou a estruturar uma análise de riscos ESG, em linha com os valores responsabilidade socioambiental  da TPF. A equipe identificou mais de 50 riscos potenciais, analisando probabilidade, impacto e definindo mecanismos de controle. A metodologia reduziu riscos críticos e viabilizou planos de monitoramento contínuo. Segundo eles, o uso combinado de BIM e AWP permitiu metrificar emissões relacionadas à movimentação de terra e resíduos, possibilitando simulações de alternativas para redução do impacto ambiental.

 

BIM em travessias marítimas

Stefania Correa, da Concremat (representante da CCCC China Communications Construction Company no Brasil e América Latina), apresentou como a China tem revolucionado grandes travessias marítimas com soluções altamente mecanizadas e integradas.

 

Em sua apresentação, Correa destacou o projeto de travessia sobre a baía chinesa do Rio das Pérolas, que combina ponte, ilha artificial e túnel imerso de 7 km, totalizando 24 km de extensão e vida útil projetada de 100 anos. Entre as tecnologias empregadas estão embarcações especializadas para cravação de estacas de até 600 toneladas e transporte de estruturas pré-fabricadas, sistemas automatizados de posicionamento e dashboards que monitoram ativos em tempo real.

 

“A eficiência chinesa é fruto de uma combinação entre detalhamento normativo rigoroso, proximidade entre indústria e academia, e capacidade de prototipagem e desenvolvimento de soluções customizadas com foco em segurança, custo e prazo”, resumiu Correa.