Resumo
Segundo Eduardo Nardelli, a combinação entre BIM e IA está revolucionando o mercado e transformando radicalmente o papel dos profissionais, que passam a atuar cada vez mais na tomada de decisões e na avaliação das soluções geradas pelas ferramentas.
A expansão da Inteligência Artificial (IA) não está apenas acelerando a transformação digital da construção civil brasileira, mas revolucionando todo o mercado. Essa é a avaliação do arquiteto Eduardo Sampaio Nardelli, vice-presidente de Arquitetura do Sinaenco, Prof. Dr. da FAU Mackenzie e líder do conselho curador do Congresso Internacional A ERA BIM, a ser realizado em São Paulo entre 24 e 26 e novembro de 2026.
Segundo Nardelli, a combinação entre IA e Building Information Modeling (BIM) amplia significativamente a capacidade de analisar informações, automatizar processos e apoiar decisões ao longo do desenvolvimento de projetos. E o impacto não se limita à produtividade: para ele, a automação de atividades que tradicionalmente exigiam equipes inteiras já está transformando as próprias funções dentro dos escritórios e empresas. Não só no futuro, mas já a partir de agora, a avaliação de Nardelli é de que os profissionais do setor de AECO – Arquitetura, Engenharia, Construção e Operações deverão ter menos atuação operacional e maior capacidade de estabelecer critérios, interpretar informações e tomar decisões.
Para o arquiteto, o Brasil também precisa avançar na produção própria de conhecimento e tecnologia. Em um cenário de transformação acelerada, empresas brasileiras precisam investir com urgência em pesquisa e desenvolvimento para que o país não permaneça apenas como consumidor de soluções produzidas no exterior.
Nesta entrevista, Nardelli reflete sobre a relação entre BIM e IA, as transformações no processo de projeto, os novos perfis profissionais exigidos pelo setor e os desafios para que o Brasil aproveite o potencial dessas tecnologias.
O que motivou a escolha de BIM e IA como os dois grandes pilares da 9ª edição do Congresso A ERA BIM?
O BIM já deixou de ser uma coisa incipiente. É uma metodologia que está sendo usada principalmente nos projetos de maior envergadura, que requerem uma assertividade absoluta. Em paralelo, temos um avanço sem precedentes da Inteligência Artificial nos últimos dois anos, em todos os ramos do conhecimento.
Quando você junta as duas coisas, tem todos os dados sobre um ativo, em formato digital, e precisa fazer uma análise dessas informações, imagine ter o auxílio da Inteligência Artificial. A velocidade com que você consegue fazer esse tipo de análise é muito grande.
E não é só análise. Hoje existem ferramentas específicas no campo da arquitetura, por exemplo, que permitem gerar sugestões de volumetrias e partidos arquitetônicos em segundos. Você faz um briefing do que quer como edifício e a ferramenta apresenta uma proposta. Você pode revisar, pedir alterações e trabalhar a partir dali.
Isso é realmente revolucionário no processo de produção, e é algo que já existe, não que vai acontecer no futuro. Queremos aprofundar as discussões sobre esse momento e todos os seus impactos no Congresso.
Como você enxerga a relação entre o avanço da Inteligência Artificial e a adoção do BIM? Há uma aceleração do uso do BIM graças ao avanço da IA em todos os setores?
De fato, você só pode adotar IA se estiver utilizando recursos digitais. Se não, não tem como. Evidentemente, você pode trabalhar usando sistemas mais tradicionais do ponto de vista digital, como o CAD, por exemplo, e incrementar algumas coisas no processo de projeto usando inteligência artificial. Você pode fazer produção de planilhas, pode fazer várias coisas.
Acontece que, como o BIM integra as informações, é muito mais eficaz usar a inteligência artificial para gerenciar informações que já estão integradas. Então, a impressão que eu tenho é que não faz muito sentido você caminhar numa direção de otimização de processos sem dar o passo inicial, que é integrar esses dados, integrar essas informações.
Como fica o papel dos profissionais de arquitetura e engenharia diante dessas mudanças? Como isso impacta as funções no processo produtivo?
Quando você olha a evolução do processo de projeto, vai perceber que algumas funções vão desaparecendo à medida que novas tecnologias entram. Quando eu me formei, nos anos 1980, você chegava a um escritório de arquitetura e havia uma estrutura com vários profissionais dedicados a diferentes partes do processo. Quando passamos para o CAD, muitas dessas pessoas desapareceram. Eu costumo usar uma imagem nas minhas aulas, de um escritório nos anos 90, em que vou eliminando as funções que desapareceram com cada avanço tecnológico.
Imagine uma ferramenta que desenvolve o modelo para você. Quem sobra nesse processo? O tomador de decisão. É aquele profissional que sabe o que é melhor: se você tem que fazer os dormitórios com 9, 20 ou 30 metros quadrados; que acabamentos vai usar; qual porcentagem do terreno pode ocupar; quantas vezes a área pode subir; qual é a melhor estrutura a ser utilizada.
E qual é a formação do arquiteto para viver nesse mundo? E do engenheiro, do designer? Será que vai continuar valendo a pena puxar o traço? Pode até continuar sendo uma manifestação artística, mas, do ponto de vista produtivo, talvez não tenha mais tanta utilidade.
A questão passa a ser: quem consegue fazer essas leituras? Quem consegue usar essas ferramentas de forma produtiva? Porque também não adianta usar a ferramenta se você não tem critério para avaliar se aquilo que ela produziu é bom ou ruim. Se você não tem competência técnica, como vai saber se o que está sendo reportado pelo processo corresponde à realidade?
Quais são, na sua avaliação, os principais riscos associados a essa transformação tecnológica?
Toda mudança tecnológica traz riscos que muitas vezes nem conseguimos imaginar. Há questões relacionadas à segurança da informação. Quando você transforma todo o seu trabalho em dados digitais que ficam na nuvem, onde esses dados estão? Como você protege essas informações? Com a inteligência artificial, isso pode se tornar um grande problema: a segurança desses dados.
Existe também o uso irresponsável da IA. Você pode utilizar a inteligência artificial para acelerar um processo de cruzamento de dados, verificar interferências, extrair informações e fazer outras coisas. Mas, novamente, se você não tem competência técnica, como vai saber se aquilo que foi produzido corresponde de fato à realidade?
O Brasil está preparado para essa transformação?
Nós estamos vivendo um mundo de mudança muito profunda e muito rápida, e as empresas brasileiras precisam se engajar em um processo de pesquisa e desenvolvimento com urgência. Nós não podemos ficar dependendo o tempo todo de iniciativas que vêm de fora. Precisamos digerir isso aqui dentro.
O Brasil tem recursos para isso. Existem agências de fomento, como a FAPESP e outras instituições, que muitas vezes são associadas à vida acadêmica, mas também estão disponíveis para o mercado e para profissionais. Precisamos aproveitar essas possibilidades para desenvolver conhecimento e tecnologia aqui.
9º Congresso Internacional A ERA BIM
Data: 24 a 26 de novembro de 2026
Local: Centro de Convenções Frei Caneca – São Paulo, SP
>>> Inscrições pela plataforma Sympla
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